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Motivação

Talvez você não saiba ou nunca parou para analisar que o processo de motivação é exclusivamente intrínseco e depende somente de você. Descrevo isso porque vislumbramos em vários meios de comunicação – digitais ou não – pessoas que comercializam ou vendem cursos de motivação. Como educador seria um pecado não contextualizar minha afirmação anterior. A motivação por definição é:

“A motivação é encarada como uma espécie de força interna que emerge, regula e sustenta todas as nossas ações mais importantes. Contudo, é evidente que motivação é uma expe-riência interna que não pode ser estudada diretamente””.(Vernon, 1973, p.11).

Por que trago esse assunto em pauta? No ramo educacional e até corporativo identificamos ofertas de cursos, palestras e direcionamentos que prometem entregar questões, fórmulas e métodos que farão com que as pessoas ampliem ou aumentem sua motivação. As áreas de atuação desses “cursos” envolvem vida financeira, pessoal, amorosa, sexual e tantas outras. A aceitação por essa tipologia de curso é extremamente elevada, porém nota-se que há um ruído de informações. Sendo a motivação um processo interno como podem esses cursos serem tão bem comercializados? O intuito dos cursos é despertar a motivação das pessoas por meio de ferramentas e ações que gerem um sentimento prazeroso, que consequentemente, gera a motivação. Não querendo ser a “ovelha negra chata” que é contra milhares de pessoas que compactuam e assumem que determinados cursos e metodologias motivacionais modificaram sua vida, eu realizei um curso imersivo por três dias. A proposta era muito clara! Três dias para mudar o vício e limitações do cérebro para uma vida abundante e espetacular. Na abertura dos portões (você aguarda a chamada para entrar) coloca-se uma música em alto volume e faz-se um cordão de “staff” que recebem você com alegria, sorridos e entusiasmo. Antes do início do curso o palestrante solicita que você abrace as pessoas que estão em seu entorno. Ele reforça que o abraço deve durar quarenta segundos. Como eu estava no meio do espaço de eventos eu abracei quatro pessoas totalizando quase cinco minutos de contato humano e risadas. Logo depois as luzes se apagam e iniciam depoimentos no telão de pessoas que já haviam realizado o curso e que tiveram suas vidas transtornadas. Apresentam suas famílias, casas, carros, fotos de viagens e várias outras conquistas. As luzes se acendem e o palestrante pede que as pessoas escrevam as questões atuais que atormentam a vida de cada um. Silêncio para reflexão! Enquanto todos estão escrevendo e analisando suas vidas, uma música melancólica se inicia. O intuito do exercício é escrever em um papel tudo que você quer retirar da sua vida. Após um período de tempo o palestrante retorna ao microfone e pede para que todos rasguem a folha do caderno e joguem no lixo. Música alta e pessoas chorando rasgando suas anotações para jogar no lixo. Assim foi por três dias (obviamente com outras palestras e dinâmicas). Ao final do curso é dado aos participantes um cronograma de execuções de atividades para as próximas quatro semanas. Esse cronograma permite com que você execute – em dias específicos – milhares de ações para que sua vida torne-se melhor. As pessoas saem cansadas, mas devido ao processo imersivo, motivadas para mudar. A motivação gerada nas pessoas é consequência das ferramentas de motivação utilizadas. Não é difícil identificar pessoas recorrentes nessa tipologia de curso. Como a sensação gerada é temporária, muitas pessoas retornam para refazer o curso em busca da motivação uma vez sentida. Então como funciona? Somado ao excessivo uso de ferramentas motivacionais a filosofia explica a histeria coletiva. Robert E Bartholomew (2002) explica que histeria coletiva é um fenômeno sociopsicológico definido pela manifestação dos mesmos ou semelhantes sintomas histéricos por mais de uma pessoa. Os cursos de motivação utilizam um somatório das ferramentas com a histeria. No curso executado faltou mencionar que estávamos em quase três mil pessoas. Agora imagine o seguinte cenário: Música elevada, frases de efeito, pessoas chorando, frases de motivação, gritos de guerra, etc..etc…Por alguns momentos me sentia um excluído por perceber que as ações e aplicabilidades do curso eram direcionadas e manipuladas para atingir o principal objetivo de qualquer curso motivacional. Existe um único método para a felicidade! Existe somente um método para uma vida financeira plena! Existe somente um método para ter um relacionamento feliz e estável! Geralmente esse “ único método” é do palestrante que o criou. Para não ser injusto, existem outros métodos – inclusive eles mesmos mencionam alguns – mas a do palestrante é o melhor. Recordo-me de ir embora do curso no Domingo transtornado com o que havia vivenciado. Milhares de pessoas expressando frases como; “Agora minha vida vai dar certo!”, “Sou uma nova pessoa” e tantas outras afirmações. Como educador fico triste por ver que parte da educação transformou-se em base para criação de “fórmulas prontas” para vários segmentos. As pessoas esqueceram que os desafios, ineditismo e provocações criados pela educação são, ou deveriam ser, as principais ferramentas motivacionais para que as pessoas busquem seus objetivos pessoais e profissionais. Como disse Abraham Lincoln “Você pode enganar uma pessoa por muito tempo; algumas por algum tempo; mas não consegue enganar todas por todo o tempo”.

 

Thiago Paiva – Empreendedor e Professor

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